APRESENTAÇÃO

No contexto atual, o desenvolvimento sócio-econômico de uma nação está muito vinculado ao seu poder de "Estado" frente ás mudanças estruturais das políticas ocorridas no cenário mundial. Países ditos "em desenvolvimento" estão cada vez mais aumentando o seu prestígio diante do mundo, talvez, em função da utilização de um modelo de gestão mais transparente e inovador. Diante dessa constatação, percebe-se que o papel dos gestores públicos, bem como da função e, mais precisamente, da sua forma de atuação, tornam-se cada vez mais importantes perante os desafios a serem superados.

segunda-feira, 8 de março de 2010

RESENHA: Sobre o papel social do Administrador - Autora: Tatiana David





CRISTALDO, Rômulo Carvalho. Sobre o papel social do administrador. REBAP: Revista Brasileira de Administração política, SP, Hucitec, v.2, n.1 Abril de 2009, p.45.

Rômulo Carvalho é Bacharel em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), especialista em Metodologia e Didática do Ensino Superior da Faculdade São Bento, mestrando em administração também pela UFBA e membro associado ao Núcleo de Estudos de Conjuntura em Administração da EAUFBa. O seu maior interesse é realizar estudos na área de administração com ênfase em política e planejamento governamentais, além de estratégia e Geoestratégia empresarial.
O autor inicia a discussão acerca do “papel social do administrador” expondo sobre seus objetivos ao tratar o tema e de como ele irá fundamentar o seu ensaio. Primeiramente, ele argumenta que a função social do administrador vai além da simples construção de mecanismos de otimização do processo produtivo de empresas. Essa é uma das suas maiores defesas durante a explanação do assunto. Em seguida, Carvalho descreve as três principais funções do administrador enquanto agente fomentador do modo de produção capitalista caracterizado pela busca incessante da eficiência e eficácia na utilização dos recursos das organizações.
Segundo esse autor, o administrador, em sua gênese, tem a função de controlar a utilização dos recursos dentro das unidades produtivas/distributivas da sociedade; de gerir a inserção da firma na sociedade através de uma estratégia empresarial e a de oferecer uma abordagem do fato socioeconômico que compreenda suas nuanças complexas de gestão.
Ele divide o texto em quatro partes discursivas (1) O administrador de empresas e organizações: promotor da eficiência; (2) O administrador estrategista: da eficiência interna até a inserção social da organização; (3) O administrador como cientista social e, por último, (4) A função do administrador e as categorias da Administração Política. Todos esses tópicos promovem questionamentos importantes sobre o administrador, principalmente, no que tange o seu papel enquanto profissional, cientista e agente viabilizador do crescimento econômico de uma empresa.
Na primeira parte ele aborda sobre o papel do administrador enquanto promotor da eficiência das forças e relações produtivas. Segundo Carvalho, essa primeira abordagem é, sem dúvidas, a mais comum e disseminada do que seria a função do administrador na sociedade. Ao fazer essa afirmação, Carvalho conta um pouco sobre a construção deste pensamento tendo por base o surgimento do capitalismo e de uma das premissas da ciência econômica, a partir da observação de fenômenos ocorridos na época, de que a produtividade das firmas era o que determinava o sucesso ou insucesso das economias nacionais. Dessa visão, infere-se que o resultado é fruto das complexidades do sistema econômico derivava de uma análise mais restrita, no âmbito micro, de outras economias, é que se destaca a figura do administrador e a função que lhe é atribuída de gestor de fábricas e das oficinas de trabalho.
O autor ressalva, porém que o papel do administrador, “a priori”, não se limita a essa atribuição. Para ele, essa função, “É aquilo que se exibe na superfície diante de um primeiro olhar” (2008, p.49). Neste momento, Carvalho inicia a discussão acerca da temática: administração política versus administração profissional. De acordo com ele, as atribuições de um administrador vão muito além de um essencial profissional capitalista, que se vale de todas as maneiras e meios para alcançar a maximização dos resultados/lucros. A finalidade do autor é demonstrar os desdobramentos dessa dita “Administração Profissional”, “A firma insere-se num ambiente dinâmico e complexo que demanda uma abordagem diferente daquele que apenas precisa promover a eficiência dos processos internos” (2008, p.49).
A partir daí, ele realça a figura do administrador enquanto estrategista. Ao fazer essa afirmação, Carvalho se apóia na constatação de que as empresas não vivem somente para se defender da concorrência. Ele afirma que, além disso, as firmas procuram subsídios e criam maneiras de estrategicamente driblar a ação dos seus concorrentes. Portanto, o administrador acaba sendo“..o profissional cujo papel específico é conduzir a empresa de modo que esta possa driblar os obstáculos que se impõem no mercado à lucratividade e a valorização do Capital.” ( 2008, p.51). Levando em consideração esta questão, é que o autor se vale do pensamento evolutivo da administração profissional, tendo em vista o papel atuante de gestor do profissional da área ao designar mecanismos para eliminar/controlar, ou, ao menos, dirimir, os efeitos da competitividade. Para ele, o administrador profissional estrategista vai além ao ver “a firma num sistema aberto, dentro de um mercado específico cujas variáveis se relacionam de maneira intricada o suficiente para colocar em questão a capacidade de um único indivíduo decidir racionalmente” (2008, p.52). Dessa forma, um dos papéis sociais do administrador seria o de gerir a inserção da organização no espaço societário.
Posteriormente, e, de modo mais categórico, Carvalho fala sobre o administrador como cientista social. Trata-se de uma discussão que levanta vários questionamentos, principalmente pelo seu caráter contestador perante debates que não afirmam a administração enquanto ciência social. Segundo esse autor, essa ocupação do administrador já não pode ser considerada como profissional porque foge do âmbito direto da organização e dos preceitos da firma capitalista. Ele observa que é preciso lembrar que a administração é um campo disciplinar que estuda fenômenos peculiares da sociedade. Daí ele fala dos objetos de estudo de algumas ciências e, em comparativo, enfatiza o caráter mais científico do que tecnicista da administração. Em suma, e, como maneira de identificar qual seria o objeto de estudo da, então, ciência da administração, Carvalho evidencia a “Gestão”, como principal foco desta ciência.
Embora haja discussões acerca da definição do objeto de estudo da administração, se seria a “organização” ou a “Gestão” e mais ainda “Gestão e organização”, o autor expõe claramente sua tese ao afirmar que “Em nossa visão, é a gestão o elemento adicional que, articulando o trabalho de maneira especial em torno de certos objetivos, faz surgir os ganhos de produtividade que Marx já percebia quase cento cinqüenta anos atrás.” (2008. p.55). Portanto, a gestão seria o item fundamental de análise da administração, haja vista que a gestão seria o elo entre as partes de uma organização, pois se levarmos em conta somente o estudo das partes isoladas de uma empresa, tal não teria grande fundamento e respaldo perante a sociedade, daí é que o elemento da gestão faria a diferença, “pois confere às partes segregadas das firmas seu ordenamento sua razão de existir, sua lógica e, também, sua forma.” (2008, p.55)
Prosseguindo, Carvalho acaba por destacar que, na realidade, a denominação de administração profissional nada mais é do que a representação do que hoje pode se chamar de administração política capitalista. Segundo ele, esse padrão profissional de atuação do administrador, de exercer de maneira muito funcional as competências de seu cargo, é reflexo social das estruturas de produção e distribuição de um modo de produção específico (capitalismo), em suas relações de classe. Para Cristaldo, “O administrador profissional, preocupado com as questões da eficiência da firma, reproduz a administração política através da administração profissional, pois esta se impõe como padrão mínimo de sobrevivência das firmas nos mercados, ou como padrão desejável de gestão das organizações”(2008, p.57).
Finalizando, o autor salienta que “os administradores, cujo papel é promover a eficiência interna da organização, como os estrategistas, que tentam gerir sua inserção externa, aparecem como agentes de execução da administração profissional, os primeiros em nível mais estático, os últimos, em um nível mais dinâmico”. E, em suma, nas suas considerações finais, fala que a ciência da gestão tem importância crucial para o entendimento da maneira mediante a qual as sociedades reproduzem, e ainda que o administrador é o profissional que transita pelo processo social não como mero especialista ou espectador, mas como formulador , direcionador e articulador.
Particularmente, trata-se de uma análise bastante interessante acerca da discussão sobre o valor, o papel e, especialmente, respaldo científico da profissão de administrador. Como profissional da área recomenda-se a leitura do ensaio e concorda-se com a visão do autor de que os administradores não são simples promotores da eficiência e da eficácia da utilização dos recursos das organizações. Acredita-se que os administradores possuem papel importante perante a sociedade à medida que detém o saber da “gestão” do “administrar” as organizações, que, na atualidade, podem ser consideradas como as “máquinas” que movem o mundo, fontes de sobrevivência de economia e da sociedade.
Porém, e, apesar deste pensamento, assegura-se que não concordo com a idéia de que somos os principais agentes fomentadores da ética capitalista, de acumulação primitiva de capital tendo em vista a exploração da mão-de-obra. Observa-se que, apesar dessa realidade que cerca o universo empresarial, pela busca incessante da lucratividade, os administradores do futuro, recém-formados, podem mudar a situação, ou ao menos, amenizá-la através de práticas, condutas mais éticas, humanas e conscientes dentro dos espaços organizacionais, nos quais as relações sociais do sistema produtivo se tornem menos conflitantes e pragmáticas perante a sociedade.

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